A Runa Berkana, o Ventre de Airtha e o Olhar Vigilante de Hœnir
A proteção do fogo doméstico, o parto silencioso e a fertilidade que dispensa alarde
Texto: Guðja Heidrekr Krähen | Clã Swartrkrahen | Irmandade Odinista do Sagrado Fogo (IOSF)
Já falamos antes sobre o lodo do poço primordial e sobre como a mente humana precisa de base firme na terra para não se perder. Agora vamos dar um passo adiante e tratar da Runa Berkana (ᛒ), do ventre da Mãe Terra e do papel de Hœnir na guarda silenciosa da nossa família.
Abra qualquer livro genérico sobre runas vendido por aí e você vai encontrar explicações açucaradas sobre Berkana. Falam de flores abrindo na primavera, de energias femininas suaves e de um bem-estar que parece saído de propaganda comercial. Essa visão não aguenta dez minutos de vida real.
Para quem cuida de uma família, gerar uma vida nunca foi passeio em tarde de sol. O parto dói e rasga a carne. Trazer um filho ao mundo envolve sangue, suor, risco de morte e um esforço físico bruto que exige respeito.
A bétula não é árvore de estufa aquecida. No norte, ela é uma das primeiras árvores a brotar no chão congelado assim que o gelo começa a recuar. Ela aguenta o vento frio na casca branca sem quebrar. Berkana carrega essa função: o abrigo materno que protege a semente nova contra o rigor do tempo lá fora.
Airtha e o Santuário da Terra Oculta
Na tradição continental dos nossos antepassados visigodos e germânicos, a Deusa da Terra atende pelo nome de Airtha Airtha Tradição Continental: A forma em Gutizka Razda para a Mãe Terra, cognata da Nerthus descrita por Tácito e da Jörð escandinava. . Veja o que o historiador romano Tácito registrou no século I ao descrever os ritos das tribos germânicas no capítulo 40 da obra Germânia Germânia 40 O Carro de Nerthus: Tácito relata que as tribos veneravam a Mãe Terra em um bosque sagrado; durante a procissão de sua carruagem coberta, toda guerra era suspensa e todo ferro era guardado. . Ele conta que a carruagem da deusa saía coberta por um pano pesado, puxada por vacas através das matas sagradas. Ninguém tinha permissão para tocar no carro ou olhar debaixo daquele manto, a não ser o sacerdote responsável. Por onde a carruagem passava, todas as armas de ferro eram trancadas. Ninguém puxava espada ou lança. A paz tornava-se lei absoluta durante aqueles dias.
A lição disso é direta: a terra exige recolhimento para gerar vida. Você não desenterra uma semente todo dia para ver se a raiz já saiu. Se fizer isso, a planta seca e morre. A criação trabalha no escuro e em silêncio, longe de barulho e de curiosos. É exatamente aí que o vínculo entre Airtha e Hœnir aparece dentro da nossa casa.
O Guardião do Quarto Escuro
O que Hœnir faz enquanto a vida está sendo formada no escuro? Ele cumpre a função dele: vigia em silêncio. Ele é o homem de guarda do lado de fora da porta. Não entra no quarto para dar palpite onde não foi chamado nem tenta tomar o lugar das mulheres que conduzem o parto. Ele segura a entrada da casa para que nada de fora atrapalhe o nascimento.
Pense num pai esperando o filho nascer. Naquela hora, discurso de guerreiro valente não serve para nada. Machado pendurado na parede não resolve o parto. O que a mulher precisa naquele momento é saber que existe um homem de cabeça fria do outro lado da porta, pronto para resolver o que for preciso sem entrar em desespero.
Essa postura vem de Hœnir. Na criação do ser humano, foi Hœnir quem entregou o óðr, o discernimento e o governo da mente que impedem o pânico de dominar a pessoa Óðr e Hœnir Völuspá 18: Enquanto Óðinn concede o fôlego vital (önd), Hœnir entrega a faculdade mental (óðr), associada na tradição da IOSF à prudência e ao domínio sobre os impulsos. . Enquanto Airtha sustenta o esforço do corpo físico, Hœnir mantém a cabeça no lugar.
A Paz da Casa: O Friðr que Não Aceita Farsa
Para a IOSF, o lar e o terreno da família, o nosso Garðs, são a base de toda a prática religiosa Garðs e Friðr Ordem Doméstica: Garðs é a propriedade e o núcleo familiar em Gutizka Razda; Friðr (Frithus) é a paz juramentada e a proteção mútua entre os membros desse núcleo. . Não adianta fazer ritual bonito no meio do mato se dentro da sua casa só existe gritaria, falta de respeito e desleixo.
A paz doméstica, o Friðr, não é fingir que está tudo bem por preguiça de corrigir um erro. O Friðr é um acordo de proteção mútua construído todo dia. Dentro da nossa cerca, nós cuidamos uns dos outros, dividimos a comida e protegemos as crianças e os mais velhos.
Berkana está nas coisas concretas que seguram essa proteção: no berço de madeira onde o filho dorme e na panela no fogo onde a comida é feita para quem trabalhou o dia inteiro. Já Hœnir está no freio da língua. É a capacidade de respirar fundo e pensar duas vezes antes de jogar uma palavra amarga na mesa de jantar, daquelas que destroem a confiança da família de graça.
"A paz de uma casa não nasce de promessas no papel. Ela vem do homem que sabe calar na hora certa e da mulher que governa o lar com firmeza."
A Prática no Altar Doméstico
Você não precisa gastar dinheiro com peças caras para honrar Berkana, Airtha e Hœnir. Esqueça altares de exposição montados só para tirar foto e postar na internet. Escolha um canto limpo e reservado da sua casa.
Pegue uma tigela simples de madeira ou de barro cozido. Coloque dentro um punhado de terra limpa, algumas sementes de trigo ou cevada e um ramo verde. Ao lado, acenda uma vela ou o braseiro e ponha um copo de barro com leite fresco ou água limpa misturada com um pouco de mel.
Fique em pé diante desse altar sem pressa e sem reza decorada. Olhe com honestidade para a forma como você tem conduzido a sua casa e tratado quem mora debaixo do seu teto. Veja se você tem servido de abrigo firme para a sua família, como pede Berkana, ou se tem trazido a raiva e a desordem da rua para dentro do quarto dos seus filhos. Avalie se você tem agido com a cabeça fria de Hœnir ou se perde o controle por qualquer contrariedade pequena.
Deixe a chama queimar até o fim em silêncio. Na manhã seguinte, leve o leite, a terra e as sementes da tigela e despeje tudo na base de uma árvore firme perto da sua casa.