Muita gente no meio heathen aprendeu a enxergar Vanaheimr com lentes cor-de-rosa, tratando os deuses Vanir como simples espíritos de horta. Imaginam divindades campestres cuidando de canteiros de flores e esquecem o que é a natureza bruta: o mar aberto e a mata fechada, onde a luz do sol mal toca o chão. A fertilidade antiga não tem nada a ver com um jardim planejado de cidade. É raiz abrindo fenda na pedra e onda alta batendo no casco do navio.
Na nossa tradição, quem está na base dessa força é Hœnir, o mesmo deus que o paganismo de rede social costuma deixar de lado por não entender sua função.
A Floresta Cresce no Silêncio
Observe uma árvore antiga no meio da mata. O carvalho e o pinheiro não fazem barulho enquanto criam madeira no tronco. O crescimento da floresta inteira acontece em silêncio, com a seiva subindo pela casca no ritmo da terra úmida. Hœnir age exatamente assim: sem alarde e sem discurso.
Na doutrina preservada no nosso livro IOSF, Hœnir não vai para Vanaheimr após a guerra entre os deuses como um refém passivo ou sem utilidade IOSFExegese Tribal da IOSF: A ida de Hœnir a Vanaheimr representa a união da mente ordenadora com a matéria viva, consolidando o solo e as águas onde os Vanir reinam.. Ele é a inteligência que fecunda o solo. Na nossa teologia, dele vem Frigga, a senhora da terra cultivada e das matas, chamada pelos nossos antepassados visigodos pelo nome de AirthaAirthaTradição Continental e Gótica: A Mãe Terra que abriga as raízes, preservada nos relatos de Tácito sobre Nerthus e no culto tribal à fecundidade do solo., o chão coberto de musgo e folhas decompostas que alimentam as árvores novas.
A mata só para em pé porque o lodo primordial de Hœnir segura a umidade na medida certa. Se o solo fosse seco como poeira de estrada, o vento levaria as sementes embora; se fosse apenas lama rala, a raiz apodreceria e a árvore cairia.
Vágr: O Mar em Movimento
Na mesma linhagem teológica em que forma o solo de Airtha, Hœnir dá origem ao irmão dela, o senhor das correntes marinhas que os antigos nórdicos chamaram de Njörðr.
Veja o que diz a estrofe 24 do poema Alvíssmál, quando o anão responde a Thor sobre como cada povo chama o mar:
"Sær heitir með mönnum, en sílægja með goðum, kalla vág vanir, álheim jötnar, álfar lagastaf, kalla dvergar djúpan mar." Alvíssmál 24Vágr entre os Vanir: Enquanto outros seres veem o oceano como superfície estendida (sílægja) ou fundo escuro (djúpan mar), os Vanir o chamam de Vágr: a onda viva que se move e renova a costa.
"Mar é chamado pelos homens, mas planície líquida entre os deuses; os Vanir chamam de Vágr (a onda), os gigantes de lar das enguias, os elfos de sustento das águas, e os anões de mar profundo."
Preste atenção no nome usado pelos Vanir: Vágr. Para quem pertence a Vanaheimr, o mar não é água parada. O mar é onda que bate nas pedras, recua na areia e volta em seguida.
Esse ritmo das marés e do ciclo das águas está ligado à regência de Hœnir. Os rios que nascem na serra e atravessam a mata fechada correm todos para o mar aberto, e a água que evapora do oceano volta em forma de chuva sobre a terra. Sem essa circulação constante entre a água doce da mata e o sal de Vágr, a terra inteira secaria.
O Silêncio que Limpa a Mente
Qualquer pessoa que já caminhou sozinha numa mata fechada cedo da manhã ou sentou na beira da praia ouvindo a água bater nas pedras sabe o que acontece: a cabeça desacelera. Os problemas pequenos da rotina perdem a importância.
Isso tem fundamento direto na nossa visão de mundo. É o óðr entregado por Hœnir na criação do homem entrando em acordo com a natureza CriaçãoVöluspá 18: Na criação de Ask e Embla, Hœnir concede o óðr (a faculdade mental, a percepção e o discernimento), equilibrando o fôlego vital (önd) de Óðinn.. A mente humana precisa do contato com a terra e com a água para não adoecer. Quando o sujeito passa a vida inteira trancado no concreto, longe do mato e do mar, começa a perder o prumo: entra em brigas inúteis por vaidade na internet e esquece o peso da própria palavra.
Muita gente hoje tem medo do silêncio. Não aguenta ficar dez minutos sozinho num quarto sem olhar para a tela do celular. O culto a Hœnir corta esse vício pela raiz, porque ensina a falar só o que é necessário, observar o tempo certo das coisas e guardar energia para o que realmente importa.
O Rito das Folhas e da Água Salgada
Para trazer essa prática para dentro da sua casa, você não precisa de encenação. Pegue uma tigela de barro cozido ou de madeira crua AltarPrática Doméstica: O uso de vasilhas naturais (barro ou madeira), água limpa, sal marinho grosso e elementos colhidos na terra para o culto familiar..
Coloque água limpa dentro da tigela e adicione uma pitada de sal marinho grosso, representando Vágr e o mar de Njörðr. Depois, junte na mesma água algumas folhas ou agulhas verdes de pinheiro, um pouco de terra escura do quintal e um pedaço de casca de árvore caída no chão.
Fique em pé diante da tigela por alguns minutos em silêncio. Não faça pedidos interesseiros nem fique repetindo palavras vazias.
Molhe as mãos nessa água com sal e terra e encoste os dedos molhados no chão da sua casa. Agradeça a Airtha pelo solo que segura as paredes da sua moradia e a Hœnir e aos Vanir pelas águas que mantêm a terra viva. Depois que terminar, despeje o conteúdo da tigela na terra do quintal ou ao pé de uma árvore.
Gutané Jér Weiháilag
Nosso modo de vida está enraizado no sangue, na honra e no solo das terras de Óðinn, e não respondemos a ninguém além de nós mesmos!
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Acervo Sagrado da IOSF
Este estudo faz parte do acervo canônico e litúrgico da Irmandade Odinista do Sagrado Fogo. O material é protegido por direitos autorais e tradição tribal. A reprodução parcial é permitida exclusivamente com citação da fonte e link original para odinismo.com.br.