Por Que Honro Hœnir, o Deus Esquecido?
A inteligência serena, a origem dos Vanir e o desdém do paganismo de vitrine
Outro dia conversamos sobre Loki e vimos como o medo de encarar a natureza real faz muita gente enxergar demônios onde eles não existem. Hoje o assunto toca num problema diferente, que não nasce do medo, mas da indiferença: o esquecimento de Hœnir.
Olhe os grupos de internet e os encontros do Ásatrú atual. O que não falta é gente fantasiada de guerreiro com pele sintética nos ombros, usando pingente grande de martelo no peito e gritando o nome de Thor. Outros juram devoção a Óðinn nas redes sociais toda quarta-feira ou tentam fazer pose de mistério falando de Freyja. Mas quando foi a última vez que você viu alguém acender uma vela para Hœnir? Quando foi que um desses grupos ergueu o chifre para honrar o Senhor do Lodo?
Quase nunca.
Hœnir não estampa camiseta de banda de metal, não virou personagem de cinema e não aparece em jogos eletrônicos rodando machado. Quem vive de aparência e estética de rede social não sabe o que fazer diante de um deus que age pelo silêncio.
A Tríade que Nos Tirou da Madeira Morta
Quem lê o nosso livro IOSF encontra uma regra clara logo na base: na Irmandade nós rejeitamos qualquer monoteísmo disfarçado de paganismo IOSF Livro IOSF: O compromisso com a totalidade do panteão politeísta e a recusa do reducionismo moral monoteísta. . Honramos os deuses por inteiro, respeitamos o sangue dos antepassados e reconhecemos a Tríade Criadora que deu forma à nossa espécie: Gaut (Óðinn), Hœnir e Lóðurr.
Veja o relato da estrofe 18 da Völuspá. Na praia de Midgard, o homem e a mulher eram apenas dois troncos de árvore caídos na areia, sem força e sem destino (örlöglausa). Os três deuses chegam juntos. Óðinn entrega o fôlego vital, o önd. Lóðurr dá o sangue quente e a cor da carne viva. E o que Hœnir entrega? Ele nos dá o óðr Völuspá 18 O Dom de Hœnir: “Önd gaf Óðinn, óð gaf Hœnir, lá gaf Lóðurr ok lito góða.” A faculdade mental, a razão e o discernimento entregues por Hœnir. .
"Önd gaf Óðinn, óð gaf Hœnir, lá gaf Lóðurr ok lito góða."
"Fôlego deu Óðinn, mente e discernimento deu Hœnir, sangue vital e boa cor deu Lóðurr."
Sem a parte de Hœnir, o ser humano seria apenas um animal de sangue quente respirando no meio do mato. Foi Hœnir quem colocou o pensamento ordenado dentro da nossa cabeça. Ele deu o bom senso, o raciocínio calmo e a capacidade de parar e medir as consequências antes de fazer besteira. Toda vez que um homem senta em silêncio para pensar antes de agir por impulso, é o dom de Hœnir que está funcionando ali. Esquecer no altar o deus que nos deu a capacidade de pensar é uma contradição sem tamanho.
O Senhor do Lodo e a Origem dos Vanir
Existe outro ponto sobre Hœnir que a maioria dos livros modernos desconhece. Quase todo mundo trata os Vanir como um grupo isolado de deuses agrícolas que surgiu separado do resto do cosmos. Na doutrina preservada pela nossa Irmandade, Hœnir ocupa o centro dessa origem: ele é a inteligência primordial que estruturou as forças de Vanaheimr Exegese IOSF Doutrina Tribal IOSF: A linhagem dos Vanir compreendida como emanação da inteligência de Hœnir atuando sobre a água e a terra fértil. .
Nos textos antigos, Hœnir recebe o título de aurkonungr, o rei ou senhor do lodo primordial. O lodo é justamente a mistura da água com a terra, o barro úmido de onde toda semente brota. Quando os mitos contam que Hœnir foi enviado a Vanaheimr para selar a paz entre os deuses, quem lê por cima acha que ele foi despachado como um refém qualquer. Na verdade, ele voltou para o elemento que está sob a guarda dele.
Hœnir é a mente silenciosa por trás do ritmo das marés de Njörðr e do tempo de maturação das lavouras de Freyr. Na simbologia da nossa própria bandeira, ele se liga à raiz da deusa Airtha e à memória guardada na Runa Berkana Bandeira IOSF Simbologia da IOSF: A Runa Berkana na bindrune da Irmandade une a memória e a prudência de Hœnir à fecundidade maternal da Deusa da Terra (Airtha). . Desprezar Hœnir enquanto se pede fartura aos Vanir é tentar colher o fruto ignorando a raiz da árvore.
O Relato de Snorri e o Valor do Silêncio
Quem lê resumos rápidos da Ynglinga Saga costuma repetir uma história mal interpretada. Snorri Sturluson escreveu que, após a trégua entre os Æsir e os Vanir, Hœnir foi para Vanaheimr junto com o sábio Mímir Ynglinga Saga 4 O Relato de Snorri: Crônica redigida no século XIII que narra a troca de reféns entre os clãs divinos e a reação dos Vanir diante do silêncio de Hœnir nas assembleias. . O texto diz que Hœnir era alto e forte, mas que, quando Mímir não estava por perto nas assembleias para dar conselhos, Hœnir respondia apenas: "Que outros decidam".
Leitores apressados pegaram esse trecho de Snorri, escrito séculos depois da cristianização para introduzir genealogias de reis humanos, e passaram a tratar Hœnir como um deus indeciso ou fraco. Não entenderam nada.
Quando você vai às fontes poéticas mais antigas, a figura de Hœnir é outra. Ele não se cala na assembleia por covardia; ele se cala porque a maioria das disputas humanas de vaidade não merece resposta. Quem tem juízo não gasta palavra à toa.
Os antigos escaldos conheciam essa característica e chamavam Hœnir de "o de passos longos", associando-o à ave pernalta (a garça ou a cegonha) que atravessa o pântano sem atolar na lama Kenningar Skáldskaparmál, cap. 15: Os títulos poéticos de Hœnir incluem “companheiro de mesa e de caminhada de Óðinn”, “o de pés longos” e “rei do lodo” (aurkonungr). . A garça no banhado não faz barulho enquanto caça. Ela fica imóvel na neblina, observa a água e só dá o bote na hora certa.
Aquele que Fica Quando a Poeira Baixa
Para medir a importância real de Hœnir na cosmologia nórdica, basta olhar quem permanece em pé no fim do ciclo. No Ragnarök, quase todos os deuses mais famosos nos grupos de internet tombam em combate. Óðinn cai diante do lobo Fenrir e Thor morre pelo veneno da serpente depois de dar nove passos. O mundo antigo queima e afunda no mar.
Quando a terra volta a subir verde das águas para começar um novo ciclo, veja o que diz a estrofe 63 da Völuspá:
"Þá kná Hœnir hlautvið kjósa, ok burir byggja bræðra tveggja vindheim víðan. Vituð ér enn, eða hvat?" Völuspá 63 O Sacerdote do Novo Mundo: A expressão hlautvið kjósa refere-se ao ato ritual de escolher e ler as varas de madeira marcadas com sangue sacrificial para consultar o destino.
"Então Hœnir escolherá as varas sagradas da sorte, e os filhos dos dois irmãos habitarão o amplo lar dos ventos. Sabeis vós ainda mais, ou não?"
Repare no peso dessa estrofe. Depois que a guerra acaba e o barulho das armas cessa, é Hœnir quem assume a função sacerdotal no mundo renovado. Ele é quem recolhe os ramos sagrados (hlautvið) para ler os sinais do destino e orientar a nova era. O deus que muita gente hoje esquece de saudar é justamente aquele que atravessa a destruição e abre o altar do futuro.
O Culto a Hœnir na Prática Doméstica
Na Irmandade Odinista do Sagrado Fogo, Hœnir tem lugar fixo nos nossos ritos. Fazer barulho em dia de festa é fácil; o difícil é manter a cabeça fria e o silêncio quando os problemas apertam a família.
Quando acendo o fogo no meu altar doméstico, saúdo Hœnir sem precisar de teatro. Uma vasilha de água limpa com algumas gotas de mel puro já basta para honrar a sua presença, A oferenda simples feita com honra vale mais que a ostentação. .
O culto a Hœnir pede atitude prática: falar menos, observar mais e usar a inteligência que a Tríade Criadora nos deu para governar bem a própria casa.
Nosso modo de vida está enraizado no sangue, na honra e no solo das terras de Óðinn, e não respondemos a ninguém além de nós mesmos!